Spike Jonze é um dos mais talentosos cineastas de sua geração ao lado de Peter Jackson, Christopher Nollan, Paul Thomas Anderson e outros. Charlie Kaufman é o melhor roteirista dos últimos tempos. Exagero meu? Acho que não. Mas a verdade é que a parceria Jonze & Kaufman rendeu duas pérolas do cinema atual: Quero Ser John Malkovich e Adaptação.No primeiro eles fazem o telespectador viajar pela mente do ator John Malkovich. No segundo eles tratam do tema da falta de criatividade de um jeito muito peculiar. Sim, do jeito Kaufman e Jonze, ou seja, genialmente amalucado.
Apesar de muitos discordarem de mim, eu acho Adaptação melhor do que Malkovich. Melhor até mesmo que Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças – outro ótimo roteiro assinado por Kaufman.
Adaptação mostra a dificuldade que o roteirista de cinema Charlie Kaufman (Nicolas Cage, no seu melhor papel em muito tempo) tem para adaptar o livro O Ladrão de Orquídeas da escritora Susan Orlean (Meryl Streep) para a telona. Acontece que o livro é inadaptável para o formato cinematográfico por causa de sua linguagem. Kaufman simplesmente não consegue realizar o trabalho e a partir daí acompanhamos os seus delírios diante dessa crise de criatividade.
Por retratar tão bem esse conflito é que o filme me chama tanto a atenção. Cage no papel dos gêmeos Charlie e Donald Kaufman surpreende e emociona como nunca havia feito. Graças a esse filme eu fiz as pazes com Meryl Streep, mas continuei achando-a – e ainda a acho – supervalorizada. Além dos dois, o elenco ainda conta com um excelente Chris Cooper e aparições relâmpagos de John Cusack e Catherine Keener, ambos de Quero Ser John Malkovich.
Adaptações cinematográficas sejam elas de quadrinhos, livros ou seriados, rendem muitas discussões e controvérsias.
Eu, por exemplo, sempre serei suspeito para falar de um filme baseado em quadrinhos, por ser fã do material original. Sou aficionado por HQ’s desde os seis anos de idade. Mas não sou um fã chato que não aceita nenhuma modificação na história, pois sei que às vezes as alterações são convenientes, necessárias e até muito bem vindas para a trama.
No entanto, apesar de não parecer um trabalho fácil, acredito que levar quadrinhos para as telas não é tão difícil quanto adaptar livros. Há muitas semelhanças entre a 7º e a 9º arte: ambas trabalham com texto e imagem. Mas ainda assim são mídias diferentes e nem tudo o que está numa HQ pode ser transposto para um filme. Eu considero qualquer cineasta que assuma um projeto destes, corajoso. Pois ele corre o sério risco de ser amaldiçoado pelos fãs devotos se acaso o filme for uma decepção. Joel Schumacher que o diga.
Agora, livros e cinema são duas coisas completamente diferentes.
Há algum tempo atrás eu li um artigo escrito pelo cineasta iraniano Abbas Kiarostami, onde ele falava o que ele não gosta no cinema. Palavras do próprio: Não gosto quando ele (o cinema) se limita contar uma história ou quando se torna um substituto da literatura.
Concordo. Cinema não é simplesmente contar uma história. Construções de cena, boas imagens, cuidado com a fotografia, com cenários... é tudo isso e mais um pouco que um verdadeiro apreciador de cinema espera de qualquer filme.
Narrar uma história é a função de um escritor de livros. A função de um cineasta é muito maior.
Adaptar um livro deve ser uma tarefa árdua. Um pepino dos grandes.
O diretor que assumir esse compromisso precisa ter respeito ao material de origem; criatividade para elaborar cenários e seqüências que retratem bem em imagens o que é apresentado em palavras no livro; e entender o universo descrito, os personagens e situações contidas nas páginas do dito cujo. No mínimo. Parece óbvio, não?
Peter Jackson mostrou muito mais do que isso em O Senhor dos Anéis. A trilogia do anel é sinônimo de realização inspirada, de carinho às personagens bem como a toda a mitologia criada por Tolkien. O Senhor dos Anéis é reflexo de dedicação, criatividade, talento, seriedade, comprometimento e amor por parte de toda a equipe que trabalhou nesses três grandes filmes.
Peter Jackson é um verdadeiro cineasta. Um cara que merece essa designação, como poucos nesses tristes tempos de diretores pretensiosos, insossos e estúdios capitalistas.
Belos cenários, efeitos deslumbrantes, fotografia primorosa, magnífica direção de arte, ótimo trabalho por parte do elenco, do pessoal da sonoplastia, enfim. Uma verdadeira perfeição. Da concepção ao resultado, Jackson preocupou-se com cada fotograma, cada detalhe...
O Senhor dos Anéis é uma das mais sagradas adaptações com toda certeza. Houve alterações quanto aos livros? Claro, mas todas vieram em benefício dos filmes.
Por essas e outras costumo dizer que Peter Jackson é o mais cinematográfico dos diretores da atualidade.
Nem todos os fãs concordam comigo. Muitos reclamam das alterações feitas. Reclamam principalmente de As Duas Torres, segunda parte da trilogia. A mesma coisa acontece com os fãs dos livros do Harry Potter que não aprovaram totalmente O Prisioneiro de Azkaban, quarto filme baseado no bruxinho criado pós J.K. Rowling.
Sinceramente é um dos melhores filmes da série. Fica atrás somente de A Ordem da Fênix, o último filme que estreou esses dias e eu adorei. Isso é o que penso agora. Na verdade, saí muito entusiasmado do cinema depois de assistir A Ordem da Fênix, mas vamos ver se depois de uma revisão eu vou continuar achando que este é o melhor dos Potter, afinal O Prisioneiro de Azkaban é um filme que quanto mais assisto mais me encanta.
Não sou exatamente um fã de Harry Potter. Mas li todos os livros e no quesito adaptação, talvez o melhor seja o quinto filme, O Cálice de Fogo. Mas as modificações feitas em O Prisioneiro... não me incomodam, pois enriqueceram a história, cinematograficamente falando.
O Código Da Vinci , baseado no livro homônimo, é que deve ter feito a alegria dos ardorosos fãs da bilionária literatura de Dan Brown. O filme está à altura do original. Isso é positivo? Sim e não. Sim para os fãs. Não para mim que sempre achei o livro um tédio.
Os números de Brown são ainda mais assombrosos que seus escritos. Eu não consigo entender como um cara que escreve tão mal faz tanto sucesso com seus livros. Ah. Sim! Ele foi o rei da polêmica com o Código...
Alguma dúvida de que o chato diretor Ron Howard quis adaptar o livro pela polêmica e não pela qualidade?
O que temos no filme é uma atuação preguiçosa de Tom Hanks e a gracinha da Audrey Tautou servindo como objeto de adorno. Por outro lado temos os ótimos Ian McKellen, Paul Bettany e Alfred Molina.
Stanley Kubrick foi amaldiçoado pelos autores dos livros que ele adaptou para a telona. Mas Laranja Mecânica é considerada uma das melhores transposições de livro para as telas. Eu, assim como uma amiga minha, só fui pegar o livro depois de ver o filme e, assim como ela, não consegui ler sem tirar o filme da minha cabeça. O resultado é que ambos abandonaram o livro antes de concluírem a leitura. Mas já que eu não posso dizer muita coisa quanto à adaptação em si, pelo menos posso dizer que, se Kubrick modificou o texto original, foi bem vindo.
Outros livros que o genial Kubrick levou para os cinemas foram O Iluminado de Stephen King e Lolita de Nabokov que se converteram em dois grandes filmes. O Iluminado eu nunca li e, provavelmente, nem vou ler, pois a literatura de King nunca me atraiu. Já Lolita é um ótimo livro, melhor que o filme. Não que este seja inferior, muito longe disso, afinal é Kubrick e todos já estamos cansados de saber o que isso significa.
Mas a visão cinematográfica de Kubrick para o romance de Nabokov não é a única. Lolita de Alan Parker é considerado um filme menor perto do de Kubrick. Bem, eu acho um tanto injusto, mas eu sou meio suspeito para falar, visto que eu tenho uma grande admiração pelo Parker. A propósito, acho que ele não é tão reconhecido como deveria.
Existem vários outros filmes baseados em livros como O Advogado do Diabo; o incrível Cidade de Deus (o livro já tinha um quê de cinematográfico com sua linguagem ágil, algo que o diretor Fernando Meirelles soube captar muito bem); o insosso O Homem do Ano (baseado no ótimo O Matador de Patrícia Melo); o simpático O Diabo Veste Prada (cujo livro eu não li, mas o filme vale pela participação deliciosa de Meryl Streep e por Anne Hathaway cada dia mais linda); As Crônicas de Nárnia...
E uma infinidade mais.
Adaptar uma mídia a outra sempre vai ser um assunto polêmico. Sempre tem um fã reclamando porque a adaptação nunca é totalmente fiel ao original, o que é praticamente impossível. Mas tem se tornado cada vez mais comum, especialmente levar quadrinhos para as telas.
E é exatamente dos filmes baseados em quadrinhos que eu pretendo falar num futuro próximo...
Até mais.
Um comentário:
Gostei bastante do post. Sou muito fã de Kaufman e Jonze... Ah, vc já sabia, né?
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